sábado, 1 de abril de 2017

A História do Teatro de Lavras

Parece estranho à sociedade atual encontrar algum divertimento sem que haja algum aparelho eletrônico ou tecnológico envolvidos. Mas diversão, evidentemente, era o que não faltava nos tempos passados, sendo a música e o teatro as principais expressões artísticas que entretinham as pessoas.

Em relação ao teatro, menciona-se em Minas Gerais a existência de casas de ópera em Ouro Preto (1770), São João del-Rei (1778) e até mesmo no arraial de Perdões (c. 1790), àquele tempo território pertencente à freguesia de Lavras do Funil. Esta Casa de Ópera provavelmente estava relacionada à controversa figura do sargento-mor Romão Fagundes do Amaral (1740-1825), chamado o “Poeta de Trás da Serra”, autor de versos satíricos e cujo comportamento devasso o levou a ser processado pela Inquisição.

A mais antiga casa de eventos em Lavras que temos notícia era o Teatro Sant’Ana, construído em 1862 por iniciativa de Francisco Couto e Silva e outros setenta lavrenses que adquiriram as quotas de 100$000 réis cada (algo equivalente a 100g de ouro). O teatro recebia as diversas companhias artísticas que realizavam turnês pelo interior de Minas Gerais, e o repertório se constituía de comédias e peças de conteúdo romântico. Em 1882 diversos acionistas cederam suas quotas à municipalidade, que encampou o Teatro Sant’Ana para reorganizá-lo e abri-lo novamente aos espetáculos. Márcio Salviano Vilela [2007] registra a intensa atividade cultural que movimentava o teatro: havia óperas, concertos musicais e peças teatrais escritas e encenadas não só por companhias itinerantes, mas também por gente da terra – como as peças “O sacrifício por amor” (drama) e “Genro abolicionista e sogra escravocrata” (comédia), do prof. Azarias Ribeiro (1901). Os avanços tecnológicos e a chegada da energia elétrica inaugurariam uma nova fase no Teatro Municipal de Lavras. Em 25 de março de 1911 ele passou a abrigar o Cine Internacional, empreendimento feito por Francisco Pizzolante. Este firmou acordo com a municipalidade, em 1914, para alugar o teatro por vinte anos, ficando sua empresa responsável pela reforma total do edifício.

A reinauguração do Teatro Municipal, agora com o nome Teatro Cinema Internacional Bar, ocorreria há pouco mais de cem anos, exatamente em 15 de fevereiro de 1917, quando Lavras ganhou uma das melhores casas de eventos do interior do Brasil. Na estréia, a Grande Companhia Lyrica Italiana Rotoli-Billoro apresentou a ópera “Aida”, de Verdi, seguida por várias óperas famosas em sua temporada na cidade ao longo do mês. Pelas décadas seguintes o rebatizado o Cine-Teatro Municipal continuou aberto a eventos de gala e requinte, revezando projeções de cinema, apresentações teatrais, ópera e concertos musicais. Permanecia também os acordos entre o poder público e os empresários que sucessivamente mantiveram os espetáculos após a transferência de Pizzolante ao Rio de Janeiro: João Corrêa de Souza Carvalho (1921-1922); Nelson Figueiredo e Procópio Alvarenga, da empresa Figueiredo & Cia. (1922-1943); e Nilton Teixeira Carvalho e João Batista do Nascimento, da empresa Teixeira & Nascimento (1943-1958).

O auge da história do Teatro Municipal talvez tenha sido em 1947, quando a recém inaugurada Rádio Cultura d’Oeste promovia aos domingos um programa de calouros, variedades e literatura chamado “Um milhão de novidades”, apresentado pelos locutores Elcídio Grandi e Alfredo Mussi, com participação de vários artistas, cantores e humoristas lavrenses, sob aplausos calorosos de uma platéia animada. Em 1949 a então locatária do teatro inaugurou o Cine Ipê, em prédio próprio, com moderno e eficiente aparelhamento técnico. Localizava-se na movimentada zona norte da cidade, onde havia as fábricas e a estação ferroviária. O Cine Municipal permanecia, mas sem a devida manutenção, o antigo edifício foi entrando em declínio. Findo o contrato com a empresa, em 1953, o mesmo foi renovado por mais dez anos, sob condição que os arrendatários se obrigavam a fazer todos os reparos necessários.

Nos anos 1950 o teatro permanecia aberto, recebendo apresentações de grupos de artistas amadores ou de companhias teatrais secundárias. Havia três correntes de opinião sobre a situação do prédio do teatro: uma que defendia sua doação a uma firma ou entidade que se comprometeria a construir um prédio para abrigar um cinema e um hotel; outra que apontava pela venda do imóvel e da construção, com o produto da venda, de uma nova prefeitura municipal; e a última que era a favor da conservação e possível restauração do teatro.

O derradeiro embate que selaria o destino do Municipal ocorreu em 1955. Em 18 de abril, a Sociedade dos Amigos de Lavras (SAL) elaborou um memorial sugerindo a entrega do imóvel àquela sociedade, comprometendo-se a facultar o uso de suas instalações a várias associações cívicas, incluindo a organização de uma biblioteca pública e um museu municipal. Pela proposta, o teatro permaneceria como principal centro cultural lavrense, devidamente preservado e ampliado em suas atribuições. Em resposta, datada de 22 de junho, a Câmara Municipal não só votou contra o pedido da SAL, mas também pediu para que fossem retirados de sua sala de sessões (lembrando que então a Câmara se reunia no atual prédio da Casa da Cultura) a biblioteca e demais objetos pertencentes a SAL. Foi um duro golpe na cultura lavrense, pois não só tirava a última real chance de sobrevida do teatro original, como também enfraquecia terrivelmente aquela sociedade civil que tanto atuou pelo engrandecimento da comunidade lavrense. Em perspectiva mais ampla, pode-se dizer que a decisão de 1955 teve como conseqüência uma reação em cadeia que desarticularia gravemente o panorama cultural e artístico municipal pelas décadas vindouras, sendo que alguns de seus efeitos (como a pouca sintonia entre o empresariado e a classe artística, ou a falta de um auditório público apropriado para eventos artísticos na região central) são observados ainda hoje.

Prevaleceu assim a primeira corrente, a qual apontava que a prefeitura deveria doar o edifício a quem se dispusesse a construir um novo cinema no local. Em março de 1958 o Cine Municipal foi interditado pelo poder público, alegando – não sem objeções – que o prédio estava em risco. Em maio do mesmo ano, a Câmara vota lei [n° 403] que autorizava incorporar o imóvel de sua propriedade à sociedade que se organizar ou se apresentar interessada na construção de um novo cinema no local.

Um parênteses importante a ressaltar é que, anos antes, a própria igreja de Nossa Senhora do Rosário se viu em situação análoga ao Teatro Municipal. Quando o tempo religioso estava em ruínas, seu terreno foi alvo de grande especulação imobiliária. Na ocasião, houve um maciço movimento em prol de sua preservação, de modo que a igreja fora tombada como patrimônio histórico em 1948. Não encontramos indício que o Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (antiga denominação do IPHAN) fora novamente acionado na questão do teatro. Nota-se, contudo, que a política então vigente do DPHAN privilegiava a preservação de bens arquitetônicos coloniais ou então modernistas (que eles mesmos produziam), ignorando a arquitetura eclética, que era encarada como “um hiato na linha evolutiva das construções no país” segundo Lauro Cavalcanti [Bortoloti, 2015]. Através desta perspectiva, muitos belos edifícios feitos em finais do Século XIX e início do Século XX acabaram demolidos com o passar do tempo em várias cidades brasileiras.

A tentativa de venda do teatro foi infrutífera. Assim, em 1959, o novo prefeito eleito aprova outra lei [n° 431] referente a situação, alienando o terreno e o prédio pelo preço mínimo de dois milhões de cruzeiros para quem construísse um cinema no prazo de vinte meses. A lei ainda previa que o produto da alienação seria aplicado nos serviços de reabastecimento de água da cidade e na aquisição de veículos para a municipalidade.

Enquanto isso, seja por não considerar aquele local como ideal, seja por julgar que uma empresa privada não deveria se envolver com o governo ou com imóveis públicos, ou seja ainda por terem encontrando uma proposta mais atrativa, os empresários do ramo cinematográfico que em tese se interessariam na compra optam por outro projeto. Em 1960 fundariam a Empresa Cinematográfica União Ltda., inaugurando o Cine Aparecida no auditório do Colégio de Nossa Senhora Aparecida. Posteriormente o grupo adquire um terreno ao lado da Primeira Igreja Presbiteriana, inaugurando em 10 de fevereiro de 1962 o belo Cine Brasil.

Concluída a questão do cinema em Lavras, menos de uma semana depois da inauguração do Cine Brasil, a Câmara Municipal aprova nova lei [n° 508] em 16 de fevereiro que dispunha sobre a constituição de Sociedade Anônima, de economia mista, para a construção e exploração de um Hotel Moderno em Lavras. Em um de seus artigos, a lei obrigava o poder executivo a demolir o prédio do Cine Teatro Municipal, cujo material seria aproveitado em obras públicas ou vendido. Vale lembrar que, meses depois, a série de atentados provocados por um piromaníaco, os quais destruíram vários edifícios históricos na cidade, foi um catalizador que acelerou o cumprimento da demolição do teatro, realizado entre junho e setembro de 1962.

Quando a demolição foi feita, a população era majoritariamente favorável a esta decisão [Oliveira, 1995]. Contudo, sendo que nada de hotel ou outro empreendimento fosse construído em seu lugar nas décadas seguintes, isto gradativamente fez pender a balança da opinião pública para um olhar negativo referente o acontecimento. (Aliás, demolições para projetos de edificações públicas que tardam em se concretizar parece ser uma triste tradição na história lavrense, havendo vários exemplos similares). O contraste entre o declínio da cultura e das artes visto no município na segunda metade do Século XX, frente o vigor e a riqueza destas que havia no período anterior, de certo causa indignação até mesmo às pessoas que nem chegaram a conhecer o teatro em seus tempos de glória. Ainda que se possa responsabilizar o prefeito da época pela execução da demolição, preferindo “lastimar, como amigo, a morte do doente, a assumir, como médico, a responsabilidade do tratamento” [Oliveira, 1995], é certo que o próprio não ignorava seu valor cultural, tentando encontrar alternativas possíveis – como a citada lei de 1959 ou mesmo uma proposta de doação de terreno municipal e algum recurso financeiro se o Serviço Nacional de Teatro, órgão ligado ao Ministério da Educação e Cultura, pudesse também colaborar [Moreira, 1962]. Poderia a municipalidade da época se comprometer sozinha com milhões de cruzeiros na restauração do teatro, justamente num período de grave crise econômica nacional como havia em 1962, considerando ainda os inúmeros problemas de maior urgência que uma cidade pobre como Lavras tinha? O exemplo da gastança dos últimos grandes eventos esportivos recentes no Brasil e a recessão econômica que assola o país desde então sugerem como difícil e ponderada seria aquela decisão. O abandono dos cuidados do Municipal vinha de longa data, e se há um culpado pelo seu fim talvez seja a própria mudança dos tempos. Era uma nova época, uma nova geração. Gradualmente o interesse popular pelo teatro esmoreceu e os custos financeiros de sua manutenção tornaram-no inviável economicamente. Como cinema, tampouco ele era necessário, pois os recentes cines já supriam a demanda local.

Como epílogo, o terreno do antigo Cine Teatro da Rua Sant’Ana ficaria sob posse da municipalidade até a década de 1980, quando fora alienado. Nele hoje se encontra uma galeria de escritórios. O produto da alienação foi destinado à aquisição de terreno para a instalação do Distrito Industrial de Lavras e a implantação de infra-estrutura do mesmo, segundo lei municipal de 1981 [n° 1295].

Ainda persiste muita polêmica sobre a trágica história do Teatro Municipal de Lavras. Contudo, à medida que um povo atinge certo grau de educação, cultura e civilidade, naturalmente haverá demanda por iniciativas tais como as vistas no passado. A lembrança daqueles setenta ancestrais nossos que se reuniram há mais de 150 anos para construir um teatro... a memória de empresários como Pizzolante e outros que viram no teatro e no cinema potencial não só para fazer cultura e arte, mas também para lucrar com isso... a vontade nostálgica do público que viveu, gostaria de ter vivido, ou que simplesmente ama e se orgulha de sua cidade, e não quer ir a outros lugares sempre que queira fruir de algum espetáculo de valor... enfim, tudo isto sugere caminhos possíveis para solucionarmos esta questão. O dito “Lavras, terra do já teve” só gera comodismo improdutivo; a melhor resposta a ela é a frase imortal de John Kennedy: “Meus conterrâneos, não pergunte o que sua terra pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer por sua terra”.

Referências:


Lavras. Lei n° 403, de 9 de abril de 1958.

Lavras. Lei n° 431, de 16 de setembro de 1959.

Lavras. Lei n° 508, de 16 de fevereiro de 1962.

Lavras. Lei n° 1295, de 10 de abril de 1981.

Moreira, S. A. (1962). Depoimento sincero sobre a questão do Teatro Municipal de Lavras.

Oliveira, H. (1995). História da Terra de Aninha da Chácara.

Vilela, M. S. (2007). A Formação Histórica dos Campos de Sant’Ana das Lavras do Funil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário