terça-feira, 15 de novembro de 2016

O Quinze de Novembro de 1889 em Lavras

O Golpe Militar de 1889 foi provavelmente o evento mais nefasto da História do Brasil, ainda que louvado pela então elite republicana.

Abaixo segue o relato sobre as reações do Quinze de Novembro em Lavras, tal qual registradas por Firmino Costa no jornal Vida Escolar, reeditado em 2015.

»» Fonte: COSTA, Firmino. “Vida Escolar” de Firmino Costa (1907-1908). Organização e notas por Geovani Németh-Torres. Lavras: Geovani Németh-Torres, 2015, pp. 55-57.


Dia da República, 15 de novembro de 1907, na Praça Municipal.
As idéias republicanas já dominavam neste município, quando, faz hoje dezenove anos, surgiu o atual regime. Antes do 15 de novembro, o Partido Republicano de Lavras tinha visto dois de seus membros saírem triunfantes das urnas, o sr. dr. Álvaro Botelho para deputado geral, e o saudoso dr. Martins de Andrade para deputado provincial. A República veio também encontrar nesta cidade uma Câmara Municipal composta em sua maioria de vereadores republicanos, um dos quais era presidente da municipalidade. O município de Lavras, como se vê, aceitou as idéias republicanas antes da proclamação da República.

Nestas condições é fácil avaliar com que alvoroços de prazer seria recebida pelos lavrenses a notícia do acontecimento hoje comemorado. A grande novidade chegou aqui por telegrama em 16 de novembro, e produziu indescritível entusiasmo em quase toda a população. Conta-nos a Gazeta de Lavras de 17 do referido mês que “na noite de 16 organizou-se passeata, a que compareceu altíssimo número de cidadãos, que percorreram as ruas erguendo calorosos vivas à República e aos chefes do partido. Entre outros discursaram com eloqüência e ardor os cidadãos: Gabriel Maia, Augusto Botelho, Francisco Sales, Álvaro Sales, Lopes Neves, Firmino Costa e Franklin de Azevedo[1]”.

No dia 16 distribuíram-se boletins convidando o povo para uma reunião, de que a Gazeta deu esta notícia:

“Algumas horas antes da designada no convite, o povo afluía em massa para o largo da Matriz em frente à Câmara Municipal. Este edifício estava artisticamente adornado.

“À uma hora reuniu-se no salão da municipalidade o Club Republicano Lavrense. Em nome do diretório, o dr. Francisco Sales disse que tendo o Club cumprido seu dever na campanha até aquele dia travada, entendia que estava finda sua missão e por isso impetrava de todos os cidadãos presentes a demissão da mesma diretoria. Em nome do povo respondeu-lhe o dr. Martins de Andrade, dizendo que a diretoria gozava da confiança de todos, e que por isso pedia que se pusesse a votos a sua proposta de reeleição da mesma diretoria. Submetida à votação popular, foi aprovada unanimemente. Em nome da diretoria agradeceu a sua reeleição o sr. Pedro Moura[2], secretário do Club. Às duas horas, ao som da Marselhesa[3], e estrugindo nos ares centenas de foguetes, foi içada a bandeira da República. Em seguida falou, como orador oficial, o dr. Martins de Andrade. Depois, dada a palavra pelo presidente do Club a diversos cidadãos, estes oraram com entusiasmo e eloqüência.

“Saíram depois perlustrando diversas ruas, sendo a bandeira republicana carregada por cidadãos distintos.

“De muitas casas falaram oradores. Foram, durante o trajeto, erguidos vivas aos cidadãos de todos os credos políticos.

“Conservou-se por muitos dias embandeirado, e iluminado à noite, o edifício da Câmara Municipal”.

A Gazeta de Lavras, que era habilmente dirigida pelo inolvidável lavrense Cincinato de Pádua, dedicou seu número de 24 de novembro de 1889 à proclamação da República. Esse número honra a imprensa local daquela época, tão bem impresso e redigido é ele. Na primeira página encontra-se a proclamação do Governo Provisório, seguindo-se-lhe artigos dos drs. Martins de Andrade, André Martins e Álvaro Botelho, Manuel Hermeto, Pedro Moura, dr. Costa Pinto, Lopes Neves, dr. Augusto Silva, Joaquim Enéas, Álvaro Sales, Augusto César, dr. Augusto Botelho, Cândido Prado, Gabriel Maia, F. F. Aquino, Gustavo Pena, Mário de Pádua, Firmino Costa, Cincinato de Pádua e Misseno de Pádua.

Foi porém, no dia 23 de novembro de 1889 que se realizaram nesta cidade os maiores festejos pelo advento da República. A esse respeito, diz a Gazeta que este lugar não tem em sua história notícia de festa tão popular, tão fraternal, nem tão brilhante.

A cidade, lembra-nos bem, enfeitou-se toda, apresentando um aspecto verdadeiramente alegre e festivo, e pela primeira vez ela iluminou-se toda. A casa da Câmara achava-se muito bem ornada, com uma deslumbrante iluminação exterior.

Aí realizou-se à noite uma sessão solene presidida pelo dr. André Martins. Falou em primeiro lugar o sr. Gustavo Pena, que, como representante do Partido Liberal, aderiu à nova forma de governo. Respondeu-lhe congratulando-se, pelo Partido Republicano, o sr. dr. Álvaro Botelho, e orou depois, em nome do Partido Conservador, o sr. Cândido Novaes. Em nome da imprensa discursou Cincinato de Pádua, e por último falou o dr. Martins de Andrade.

Terminados os discursos, o presidente convidou o povo para a passeata projetada. O préstito foi assim organizado: na frente um batalhão escolar, estando todos os meninos de barrete frígio[4]; em seguida um bando de meninas empunhando bandeiras; logo após o dr. André Martins, digno juiz de Direito, levando a bandeira nacional, com uma guarda de honra formada por moças que representavam os Estados do Brasil; depois a banda musical e grande massa popular. À saída do préstito foi dada uma salva de 21 tiros.

Tendo percorrido várias ruas, o préstito dissolveu-se em frente à casa da Câmara, onde agradeceram ao povo o seu concurso os srs. dr. Álvaro Botelho e Gustavo Pena.

Relembrando o modo tão festivo por que Lavras recebeu a República, julgamos ter comemorado dignamente a grande data de hoje.



[1] Franklin Alves de Azevedo era proprietário de dois edifícios históricos na Rua Sant’Ana ainda hoje existentes: a “Casa Rosada” e o “Casarão 1909”.
[2] Pedro Xavier Moura (1849-1931), político lavrense nascido em Nova Iguaçu (RJ).
[3]La Marseillaise” é o Hino Nacional da França, composto por Claude Joseph Rouget de Lisle (1760-1836).
[4] Espécie de touca vermelha utilizada pelos povos da Frígia (Ásia Menor) e adotado pelos revolucionários franceses – e por conseguinte, pelos revolucionários republicanos na América Latina.

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